Entre memória, luto e reinvenção, o texto de Daniela Bonafé atravessa a ausência materna como ferida e força, costurando infância, maternidade e linguagem em uma escrita sensorial e contundente. Ao transformar dor em gesto — entre a culpa, o cotidiano e a delicadeza dos afetos; a autora constrói uma poética que oscila entre ruína e renascimento, onde a falta se converte em coragem e a vida insiste, mesmo frágil, em florescer.

IMPARÁVEL

Sua fome persegue meus pés
: teimosa, insisto a cada dia que chega
– passo um batom no meio da cara
me encho da cor de um vestido –
algumas sombras contornam a rotina.
Ruínas do futuro que não sonhei
e ainda choro no seu aniversário.
Meus cabelos deitados na tua barriga [ miragem ].

Meu filho berra
: lembro das vezes para sempre
em que você nunca estava.
Chamo seu nome dentro da cabeça
– abismo nas pontas dos dedos –
eu cresci na tua falta.
— Não se preocupe!
Eu preparo a lancheira dele com porções adequadas.

Janela ou ponte seriam mais fáceis
: você quis que eu visse
covarde flor se despetalando em carnes.
Achei que era escolha e a culpa nasceu
– a sua e a minha –
eu peço perdão todas as noites
e não espero mais a memória sorrir fingida
[ o teu rosto magro e morto grudou em mim ].

Perdi as contas das vezes sentada
: os olhos pregados na vidraça e a boca embaçando
os desenhos das gotas e delas os caminhos escorridos
enquanto chovia vazava a saudade
de te ver chegar para a sopa.
O cheiro da chuva é o seu cheiro
e no meu nariz de infância lateja
perfume de mãe.

Já estoquei comida
: acreditei que era bom garantir
que a loucura não me alcançasse
e vinguei sua morte a cada pacote de doce
– o carinho do açúcar das palavras não ditas –
deixei o armário de mantimentos contar nossa história
de outro jeito bem mais bonito.

O buraco que você deixou eu preenchi
: a ciência me trouxe explicações
[ risquei a palavra órfã do dicionário mil vezes até rasgar ]
com o afago da minha avó na testa
enchi de descobertas a terapia
gravei na maternidade seu sobrenome
e encontrei razões inventadas ou não
para deixar um legado, ainda que.

Toco o tamanho da sua tristeza
: imensa feito minha vontade de gritar
que não sou, não fui e nunca serei
igual, parecida, um naco de você.
Eu deixo que a vida entre e revire
e mesmo com medo eu confio que posso.
— Sua ausência pariu a coragem que minhas pernas caminham.
[ para onde? ]

Desfio e desalinhavo o lençol branco
: como Arthur Bispo do Rosário eu puxo fio a fio
e costuro seus pedaços no pano – colcha de retalhos
que embrulhou sua dor pelas madrugadas.
Escuto na lembrança seu choro miúdo feito o punho
e me vejo no banho a riscar o box molhado
com palavras que eu guardei para você.
O tempo foi curto para nós.

Me pergunto
: o que faz o desejo sucumbir e o tempo,
suspenso, tornar-se um fardo?
As sete camadas insuficientes que me protegiam
calma e morna no teu útero
[ agora o poro exposto ao sal da lágrima ].
Me perco na tarefa de não repetir
o padrão que te levou das manhãs que nascem.

Ele me pede uma história antes de dormir
: não conto do dia em que você decidiu fechar a boca
[ a morte não nina crianças ]
os seis meses infinitos sentindo o seu hálito esfriar.

Ele prefere os coelhinhos e livros de tocar
no papel a pelúcia que imita a pele macia e o pêlo fofinho.
A vida pode ser uma brisa suave
– ele me ensina e eu sigo aprendendo.

Meus braços avançam – galhos longos firmes fortes
: na tentativa de enlaçar o instante, me instauro árvore.
Apreender o sabor da fruta madura
amoras e o brilho do rebento ao sol,
tudo é vivo e anuncio a plenos pulmões
que os brotos da primavera chegaram!
Imparável, colho flores para enfeitar a sala
e dou abrigo a quem precisa descansar no meu colo.


Daniela Bonafé é escritora, artista e professora de Arte, autora de 10 livros, dois deles traduzidos para espanhol e inglês. Seu último livro, Rosas de Chumbo (Taup, 2025) é um romance híbrido que dá voz às mulheres assassinadas pela ditadura militar brasileira, ficção escrita a partir de documentos da Comissão Nacional da Verdade. Possui textos publicados em diversas revistas literárias como Cassandra, Alpendre Literário, Tato Literário, Desvario, A desFrutada, Contos de Samsara, Vinca Literária, Alinhavos, entre outras e sites. Paulistana, mãe e feminista, é militante da Educação em Direitos Humanos, finalista de diversos prêmios e concursos literários. Membra do Coletivo Escreviventes e articuladora do Mulherio das Letras SP Capital. Colunista na Revista Voo Livre. Daniela é autora de Soprinho, Brisa, Ventania e Tufão (2020), pela Fantasy Books; Útero (2021), pela Liberty Books; Contos para o Fim do Mundo (2021), pela Ed. Voz de Mulher; Menina na Estrada (2022), pela Fantasy Books; Livro da Impermanência (2022), em edição própria; Na Redoma da Flor (2022) e En la cúpula de la Flor (2023), ambos pela Caravana; A Voz dos Bichos(2023), também pela Caravana; Útero (2023), em versão e-book pela Amazon/Kindle; Bento e Tuca (2024), pela Ed. Lendo; e Rosas de Chumbo (2025), pela Editora Toma Aí um Poema.


A obra de arte que acompanha o poema é de autoria das artistas Park Chae Biole & Dalle, cortesia da exposição Alargar o tempo, tecer a vida, da galeria Galatea.

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Publicado por:Philos

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